Olho d’Água

Em 1952, a família Calixto migra de Colinas do Maranhão para Goiás, juntamente com outras 27 famílias se fixam em São Miguel. Nessa época Seu Zé Calisto e Dona Augustinha, tinha cinco filhos. Começaram a trabalhar na terra devoluta, mas a vida era muito difícil. Em 1958 mudam para o Povoado Caldeirão, porque sonhavam em construir um setor para a família. Ali já moravam aproximadamente 40 famílias, colhiam muita produção, eram unidos: rezavam quaresma, dançavam lindô, plantavam quintal, faziam extrativismo do babaçu e roça de toco. Procuravam “os baixão” para trabalhar, cada família no seu rumo mas ninguém pensava em ter a sua terra, a terra era de todos.

Em 1969, Seu Zé Calixto comprou a terra das freiras com direito de posse (6 a 8 hectares), elas ofereceram porque a família era grande, deixaram o sítio no Caldeirão. Mudaram a moradia, mas os serviços ficaram todos lá, essa terra é emendada do Caldeirão.

As terras não tinham dono, era tudo devoluto. A grilagem começa em 1970, até então ninguém falava em dono de terra, isso começou com os piques da Fazenda Serra. Em 1972 começa a demarcação, alvoroçou todo mundo, porque o cabra chegava dizendo que era dono, aparecia, ninguém sabia quem era, mas dizia ser dono da terra, que era fazenda de um só herdeiro.

Em 1975 os conflitos com os trabalhadores aumentaram, muita gente vendeu as coisinhas e foi embora, a família resistiu. Seu Zé Calixto e Dona Augustinha foram buscar apoio em todos os órgãos em Imperatriz, Araguaína, Goiânia, Marabá e Brasília, só com a força e a coragem procuraram muito pelos direitos.

Em 1977, inicia o acompanhamento da CPT com Nicole e Nicola, dois anos depois inicia o movimento para criação do STTR. Nessa mesma época foi quando acontece a entrada do óleo de soja na região que passa a competir com o azeite de babaçu, gerando uma redução do extrativismo do coco babaçu e queda do valor.

Em 1980, a família tinha “um baixão” que estava preservado, mas com os grileiros doaram para 18 famílias botarem roça “tudinho” junto, assim afastavam o grileiro. Veio gente de Sete Barracas e São Miguel. O principal fazendeiro era o Doutor João Batista que dava apoio a todos os grileiros, porque ele era o juiz, mas, o pior mesmo, foi o João Carneiro. Pistoleiros foram procurar Dona Augustinha que estava em Araguaína, atiravam ao redor das casas para amedrontar, nesta época só não morreu gente por causa dela.

O sindicato era para ser criado em 1982, mas a polícia não deixou. Se faziam reuniões escondidas de Praia Norte até Itaguatins, o pessoal vinha a pé. Como a luta era grande, perdemos o medo e fundamos o sindicato em 1983. Foi quando Dona Augustinha foi pra Brasília e trouxe a ordem definitiva da terra; em pouco tempo, demarcaram, era 1984. Desse tempo em diante, nunca mais teve grileiro. Depois da terra titulada, Seu Zé Calixto foi ajudar outras comunidades. A nossa luta de corpo a corpo durou doze anos.

O sonho do casal era ter uma vida sossegada, trabalhando para a família e não para os outros. Dizia: “meus filhos, eu lutei, enfrentei a bala para adquirir esta terra, para ficar para meus filhos, netos e bisnetos, para não passar o que eu passei: a humilhação. Deve servir para criar os seus filhos”. Eles nunca disseram que tinham adquirido para deixar de herança, para dividirem. Quando chamou para dividir, alguns falaram que queriam ficar assim, outros calaram, então ele disse: esta terra não é para dividir.

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